Vou adoecer
Vou culpar os meus pais e todo mundo possível por isso
Meus pais serão obrigados a cuidar de mim
Quanto mais adoecer, mais se sentirão culpados e terão que me dar razão
Quanto mais desesperados, mais chorarão e sentirão o filho que estão perdendo
E terão que me dar todo carinho e atenção, todo afeto e companhia que eu sempre quis
Na adolescência era o suicídio
Eu voltava como um espírito e meus pais e todo mundo se arrependia de ter me matado
Na adultidade era o adoecimento
Eu acabar com um câncer e meus pais terem que cuidar de mim e chorarem desesperados sentindo a minha morte próxima e a culpa pelo que fizeram
A solução para proximidade era sempre autodestrutiva:
- Da vingança à culpa
- Da culpa a atenção e afeto
Nunca uma aproximação saudável, nunca o diálogo e o entendimento
Sempre a vitimização
Mesmo entre a adolescência e a adultidade, a solução era autodestrutiva
Era entrar em conflito com todos e sair na mão com todos
Para poder culpar todos pelo mau que me fizeram
Para fazer todos se sentirem culpados pelo que me fizeram
Para fazer todos cederem a minha manipulação e estarem sob meu controle
E se me rejeitassem, dobraria a aposta redobrando o conflito e me machucando cada vez mais para, assim, chegar num ponto onde fosse impossível qualquer um negar o mal que todos me fizeram
Basicamente: usando a minha própria vida como moeda de troca
"Todos são maus, culpa de vocês eu estar morrendo"
"Ou vocês assumem a culpa e cuidam de mim, ou eu vou morrer e vocês se sentirão pior ainda"
"Eu quero que vocês reconheçam que eu é quem tinha sempre razão e nada disso teria acontecido, nada disso teria evoluído para isso, se tivessem me ouvido e escutado"
O que posso fazer agora?
- Eu preciso que essas pessoas que me fizeram mal me ouçam e escutem?
- Eu preciso da atenção e afeto justamente delas?
- Eu preciso me vingar delas?
Não, não e não
Então o que eu posso fazer agora?
- Buscar outras pessoas para me vitimar e terem pena de mim?
Não
- Buscar novos conflitos para me vitimar e culpar os outros?
Não
- Buscar cuidar de mim mesmo aprendendo:
Como dialogar, como interagir, como me relacionar comigo mesmo?
Sim
O ódio não cultiva nada senão morte, mesmo que busque as melhores intenções
E se quem odeia não acabar morto, mata completamente sua confiança nos outros e a confiança dos outros sobre ele
Mata inclusive sua própria confiança em si mesmo, pois se acha incapaz de interagir e se relacionar com os outros e até mesmo consigo mesmo
É preciso, assim, diferenciar o ódio da indignação.
O que faz o ódio?
- Ou ele mata:
Elimina o outro completamente da existência
- Ou ele "mata":
Impõe a culpa para fazer o outro assumir a personalidade e comportamento impostos
O que faz a indignação:
- Trata de indicar que:
- Toda ação que não gere equilíbrio entre o coletivo e o indivíduo gera injustiça
- A injustiça mata
- Reconhecimento e ação:
- A construção da justiça:
- Igualdade de condições
- Igualdade de oportunidades
- A emancipação:
- Liberdade negativa: respeito
- Liberdade positiva:
- Independência individual: ser independente dos outros
Independência teórica, prática e afetiva
- Independência material: ser independente da natureza
Independência tecnológica: tudo em um
Como a indignação é construtiva
- Nem morte, nem punição: diálogo
- Diálogo para:
- Justiça: convivência saudável: esperança ou sobre a síndrome de amadurecimento
- Emancipação: vida verdadeira:
- Sem depender de nada ou ninguém
- Livre para conhecer a si mesmo e ao outro, livre para ser-se consigo e com o outro
Mas toda minha interação com os outros precisa ser focada na indignação?
Não: a indignação saudável fornece caminhos possíveis: a justiça e a emancipação
- Aprender a conviver bem
- Aprender a ser livre