terça-feira, 7 de julho de 2026

Adoecimento, vingança, companhia e afeto

 Vou adoecer

Vou culpar os meus pais e todo mundo possível por isso

Meus pais serão obrigados a cuidar de mim

Quanto mais adoecer, mais se sentirão culpados e terão que me dar razão

Quanto mais desesperados, mais chorarão e sentirão o filho que estão perdendo

E terão que me dar todo carinho e atenção, todo afeto e companhia que eu sempre quis


Na adolescência era o suicídio

Eu voltava como um espírito e meus pais e todo mundo se arrependia de ter me matado

Na adultidade era o adoecimento

Eu acabar com um câncer e meus pais terem que cuidar de mim e chorarem desesperados sentindo a minha morte próxima e a culpa pelo que fizeram


A solução para proximidade era sempre autodestrutiva:

- Da vingança à culpa

- Da culpa a atenção e afeto

Nunca uma aproximação saudável, nunca o diálogo e o entendimento

Sempre a vitimização


Mesmo entre a adolescência e a adultidade, a solução era autodestrutiva

Era entrar em conflito com todos e sair na mão com todos

Para poder culpar todos pelo mau que me fizeram

Para fazer todos se sentirem culpados pelo que me fizeram

Para fazer todos cederem a minha manipulação e estarem sob meu controle

E se me rejeitassem, dobraria a aposta redobrando o conflito e me machucando cada vez mais para, assim, chegar num ponto onde fosse impossível qualquer um negar o mal que todos me fizeram


Basicamente: usando a minha própria vida como moeda de troca

"Todos são maus, culpa de vocês eu estar morrendo"

"Ou vocês assumem a culpa e cuidam de mim, ou eu vou morrer e vocês se sentirão pior ainda"

"Eu quero que vocês reconheçam que eu é quem tinha sempre razão e nada disso teria acontecido, nada disso teria evoluído para isso, se tivessem me ouvido e escutado"


O que posso fazer agora?

- Eu preciso que essas pessoas que me fizeram mal me ouçam e escutem?

- Eu preciso da atenção e afeto justamente delas?

- Eu preciso me vingar delas?

Não, não e não

Então o que eu posso fazer agora?

- Buscar outras pessoas para me vitimar e terem pena de mim?

  Não

- Buscar novos conflitos para me vitimar e culpar os outros?

  Não

- Buscar cuidar de mim mesmo aprendendo:

  Como dialogar, como interagir, como me relacionar comigo mesmo?

  Sim


O ódio não cultiva nada senão morte, mesmo que busque as melhores intenções

E se quem odeia não acabar morto, mata completamente sua confiança nos outros e a confiança dos outros sobre ele

Mata inclusive sua própria confiança em si mesmo, pois se acha incapaz de interagir e se relacionar com os outros e até mesmo consigo mesmo

É preciso, assim, diferenciar o ódio da indignação.

O que faz o ódio?

- Ou ele mata:

  Elimina o outro completamente da existência

- Ou ele "mata": 

  Impõe a culpa para fazer o outro assumir a personalidade e comportamento impostos

O que faz a indignação:

- Trata de indicar que:

  - Toda ação que não gere equilíbrio entre o coletivo e o indivíduo gera injustiça

  - A injustiça mata

- Reconhecimento e ação:

  - A construção da justiça:

    - Igualdade de condições

    - Igualdade de oportunidades

  - A emancipação:

    - Liberdade negativa: respeito

    - Liberdade positiva: 

      - Independência individual: ser independente dos outros

        Independência teórica, prática e afetiva

      - Independência material: ser independente da natureza

        Independência tecnológica: tudo em um

Como a indignação é construtiva

- Nem morte, nem punição: diálogo

- Diálogo para:

  - Justiça: convivência saudável: esperança ou sobre a síndrome de amadurecimento

  - Emancipação: vida verdadeira: 

    - Sem depender de nada ou ninguém

    - Livre para conhecer a si mesmo e ao outro, livre para ser-se consigo e com o outro


Mas toda minha interação com os outros precisa ser focada na indignação?

Não: a indignação saudável fornece caminhos possíveis: a justiça e a emancipação

- Aprender a conviver bem

- Aprender a ser livre

terça-feira, 21 de abril de 2026

"Se continuar assim, você nunca deixará ninguém se aproximar de você e te ajudar, nem mesmo você conseguirá ouvir a si mesmo e se acompanhar e se motivar e sentir amor por si"

Você já pensou que todos os que manifestam ódio aprenderam a odiar e que o ódio seja a maneira deles de expressar o choro de suas crianças interiores que foram sufocadas até crescer dentro delas um imenso ressentimento e necessidade de vingança?


O desejo de vingança é um luto que nunca chega, um choro que nunca se concretiza, é um apego ao sufoco e a própria morte: é o desejo da criança em um apego que nunca teve, um afeto compensado em se sentir vítima e querer ser vítima para poder culpar a tudo, todos e a si mesma, nem que para isso tenha que pagar com a própria vida.


Em lugar da vingança, é preciso o luto, é preciso o choro, é preciso não apenas o saudável como o verdadeiro acolhimento: que todo ódio, sofrimento, dor, adoecimento, morte seja substituído pelo amor, pelo carinho, pelo calor, pela cura, pela vida. Que consiga se perdoar, que fez o seu melhor com o que tinha em mãos, que agora é possível fazer diferente, que não precisa fugir do seu próprio corpo e da sua própria mente, da sua sensibilidade e racionalidade, da sua existência e da sua vida, dos seus desejos e das suas ações: pode enfrentar tudo, incluindo a si mesmo, aprendendo e sentindo o prazer de aprender e seguir em frente se sentindo e constatando ser a si mesmo cada vez mais, em total congruência consigo mesmo, finalmente livre e em absoluta espontaneidade e autenticidade.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Apenas o vazio, o silêncio e o nada

 Eu me nego a aceitar a mim mesmo como uma máquina, como um sistema de recompensa-punição/prazer-dor.


Gostaria de ir além: alcançar a paz.

Nem recompensa, nem punição.

Nem prazer, nem dor.

Simplesmente o silêncio, simplesmente ser.


Por isso.

Por isso gostaria de desaparecer.

Sumir.

Deixar de existir.

Cansei.

Toda dor implica em uma fuga para o prazer.

E quanto mais sente prazer, mais tem medo de não sentí-la e, portanto, se vicia não somente no prazer como na paranóia que a sustenta e alimenta.

Paranóia de não sentir prazer é uma dupla dor: a própria da ausência do prazer e, mais substancialmente, voltar a sentir dor.

E esses dois fantasmas criam um verdadeiro inferno.

Um cemitério de almas penadas em contínuo trabalho, sempre a assombrar os vivos, a debochar dos seus sentidos e sentimentos.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Ficar em silêncio, acabar com a síndrome de herói

 Ninguém se importa com o que não é importante para si

E ninguém é obrigado a considerar o que é importante para alguém como importante para si

E querer que os outros mudem a si mesmos e mudem o mundo é a mais absoluta prepotência

"Vejam como eu sou legal, vejam como faço isso, aquilo e tal por vocês"

"Problema teu"

"Você não vê como o que estou fazendo é importante para todos e para você também?"

"Você nem me conhece e já vai assumindo que sabe o que é importante para mim. Sabia que isso é uma enorme arrogância? Da minha vida cuido eu, eu sei o que é importante para mim, eu que vivo todos os meus sonhos e dificuldades, pare de tentar achar que você é eu, que minha vida é a tua, e que sou obrigado a realizar o que você considera importante. Vá viver tua vida e boa sorte."

sábado, 25 de janeiro de 2025

Eu já sonhei, muitas vezes, com o tipo ideal de morte

 No alto de uma pequena colina

Toda de gramado e uma grande árvore

Vistosa, frondosa, farfalhante

Estaria eu 

Junto com uma bela moça

Deitado e com a cabeça no colo dela

Esperando meus últimos minutos de vida

Saboreando seu carinho em meus cabelos

Com mãos pequenas e delicadas, dedinhos finos e lindos

Deslizando sobre e entre os fios

E observo

Em toda paisagem ao redor 

O azul no céu

E o dourado do trigal na terra

Num fim de tarde frio de fim de outono e chegada de inverno

Com uma brisa deliciosamente gelada a acariciar meu rosto

E tudo ficar gradualmente mais e mais lento

Até

De repente

Só existir 

A mais pura escuridão

O mais absoluto silêncio

Casados no fim

sábado, 12 de outubro de 2024

 Quando toda arrogância, orgulho, ego, caem...


O que efetivamente sobra da pessoa?

domingo, 15 de setembro de 2024

Sobre minha visão ideal de mundo

 Socialmente

- Sensibilidade e razão amadurecidas

- Interesse em compreensão e entendimento

- Participação e amadurecimento

- Individuação e emancipação

Não é preciso que todos sejam amigos

Mas seria interessante que as pessoas tivessem consciência do que estão rejeitando quando rejeitam algo ou alguém, e portanto do que significa essa rejeição.


Individualmente

- Formação teórica e prática

- Pesquisa e desenvolvimento

- Realização e aplicação

- Sensibilidade e razão existenciais

Quero que todo meu conhecimento e ação sejam poéticos, que alcancem o essencial, que eu consiga estar sendo eu mesmo e vivendo a minha vida.

Sendo eu mesmo e vivendo minha vida no sentido mais individual possível, de finalmente ter alcançado meu eu e minha vida plenamente, e eu conseguir realmente sentir isso e provar que isso é verdade.

Ser real, concreto, verdadeiro, lógica e empiricamente, que toda minha ética e estética sejam ontológica e epistemologicamente fundamentadas com todo rigor e precisão necessários, e assim permitindo todo contato com a beleza da existência. Quero uma pegada firme, certeira, e poder realmente constatar que é isso - sem endeusar ou demonizar isso, simplesmente apenas aceitar a sutileza e profundidade disso e, assim, também sua ludicidade ou mesmo loucura (alguém, talvez, poderia chamar misticidade).

Pode parecer banal, mas eu gostaria de sentir, compreender, entender, viver, ser, isso que chamam de alegria, felicidade, amor.